Durante a oficina, mulheres Yanomami e Ye’kwana refletiram sobre as condições de parto nas cidades, a violência nas comunidades e, principalmente, a relação dos jovens com o consumo de álcool: tema que mobilizou grande parte das discussões. O encontro reuniu 22 representantes de nove associações e nove regiões da Terra Indígena Yanomami e foi construído a partir das demandas apresentadas por elas próprias.
Esta foi a segunda oficina de Direitos Humanos voltada às mulheres do território. A primeira resultou na elaboração de duas cartilhas: uma sobre os direitos das mulheres yanomami e ye’kwana e outra com orientações para um bom parto. Desta vez, segundo a antropóloga Karenina Vieira Andrade, da UFMG, a preocupação com o abuso de álcool e outras substâncias entre jovens ganhou centralidade. “Elas relatam que o problema não se limita às idas à cidade, mas também afeta as comunidades no território”, explica.
A antropóloga ye’kwana Viviane Cajusuanaima Rocha, que acompanhou os seis dias de atividades, destacou que o encontro permitiu a troca de experiências entre mulheres de diferentes regiões da maior terra indígena do Brasil. Para ela, conhecer os direitos é fundamental, sobretudo quando precisam sair das comunidades.
“Vivemos realidades distintas e nem sempre sabemos o que acontece em outras regiões. Entender nossos direitos é essencial”, afirmou.
Viviane também ressaltou que o consumo de álcool, especialmente nas visitas à cidade, é uma preocupação comum entre as participantes. “A bebida dos brancos causa conflitos e desrespeita nossa cultura. Foi uma conversa difícil, mas necessária”, pontuou.
As discussões resultaram na produção de uma nova cartilha com estratégias de enfrentamento a diferentes formas de violência, incluindo o uso de álcool, drogas, celulares e internet. O material também reúne orientações sobre como as mulheres desejam ser atendidas nos serviços de saúde.
A oficina foi encerrada com uma reunião entre as participantes e representantes da Secretaria Estadual de Saúde, do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Ye’kwana (DSEI-YY), da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e da Defensoria Pública da União (DPU). Na ocasião, foram apresentados o guia de pré-natal e a cartilha sobre a saúde das mulheres yanomami, sanöma e ye’kwana.
“Essa cartilha não vai ficar só aqui. Ela será levada às comunidades para que todos entendam como queremos ser tratadas”, afirmou Ariane de Souza Goes, representante da Associação Yanomami do Rio Caburais e Afluentes (Ayrca). Ana Lúcia Paixão, vice-presidente da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK), reforçou que profissionais de saúde precisam conhecer a realidade dos territórios para oferecer um atendimento adequado e respeitoso às especificidades culturais.
A atividade integra o projeto de Direitos Humanos da UFMG, vinculado ao Programa de Extensão em Direitos Humanos, Educação e Saúde Yanomami e Ye’kwana, que também desenvolve ações como a formação de professores indígenas, a criação de espaços comunitários de saberes e iniciativas voltadas às redes de cuidado em saúde na Terra Indígena Yanomami.
Fonte: ISA.